Author Archives: caiqueluiz

EM BUSCA DE UM CHÃO PARA CHAMAR DE SEU

Projeto para modernizar o Recife, no início do século XX, expulsa as famílias pobres do centro da cidade e, com isso, dá origem às primeiras favelas de Pernambuco.

Entre as décadas de 1920 e 1940, a cidade do Recife começou a passar por um forte processo de planificação. Para se mostrar um estado moderno, o governo de Pernambuco e a Prefeitura da capital iniciaram uma reorganização do traçado urbano do Recife. Mas para que isso acontecesse muita coisa teria que ser modificada. Para que novas ruas e avenidas fossem criadas e/ou expandidas, igrejas, casas, prédios públicos tiveram que ir ao chão, tudo em nome da reurbanização da nova e moderna cidade do Recife.

Image

Mocambo alocado no Centro do Recife por volta da década de 1920 | Foto: Museu da Cidade do Recife

O centro da cidade era tomado por um aglomerado de casas populares conhecidas como ‘mocambos’. Os mocambos situavam-se em áreas tidas hoje como nobres do Recife, bairros como os da Madalena, Espinheiro, Casa Forte e Boa Viagem eram completamente habitados pela população mais pobre da região.

No início dos anos 20 houve êxodo rural muito forte em Pernambuco devido à grande seca no Nordeste e, consequentemente, a brusca queda da produção canavieira. Viver no interior se tornou ainda mais difícil e as pessoas começaram a migrar para o centro urbano do estado. Com isso, ocorreu um enorme crescimento populacional da cidade do Recife. No entanto, esses trabalhadores rurais e suas famílias não tinham o que comer, e muito menos onde morar, por essa necessidade, eles começaram a procurar emprego nas grandes indústrias que vinham se instalando em Recife e com isso construíram, à própria mão, suas moradias o mais próximo possível de seus empregos. Esse aumento populacional da cidade do Recife fez com que o número de mocambos se multiplicasse por toda a cidade.

Com o interesse do governo em ‘reorganizar’ o centro do Recife, os mocambos começaram a ser enxergados com outros olhos. De forma de fácil acesso do empregado ao seu trabalho, sem gerar atrasos na produção, os mocambos começaram a ser vistos como uma praga para a estética do novo plano urbano da cidade, daí começaram a ser considerados uma ameaça. De acordo com o pesquisador Thiago Pereira Francisco, especialista em história da favelização no Recife, o governo planejou transformar o centro do cidade em uma área para a classe abastada da cidade. “A distância entre pessoas das altas camadas e a população pobre, principalmente os recém-libertos da escravidão, era muito perceptível do ponto de vista social e econômico. Mas quando se entra na era republicana a ‘alta sociedade’ queria se distanciar geograficamente da população pobre, então a habitação da camada mais baixa da sociedade recifense era algo que começou a ser visto como um problema que exigia intervenção. Passou a ser uma luta pela ocupação espacial da cidade”, ressalta Thiago.

Os governos estadual e municipal começaram a atestar que as comunidades mocambas eram insalubres e foco de imoralidades sociais, como prostituição e ‘bandidagem’, e que não permitiam ao trabalhador uma condição de vida digna. Ao mesmo tempo, o mercado imobiliário começava a crescer na capital pernambucana e o seu interesse era grande sobre as áreas onde os mocambos estavam alocados. Diante dessa pressão do governo e do forte interesse do mercado imobiliário sobre essas áreas, se iniciou uma ação por toda a cidade para a derrubada dos mocambos e a retirada das famílias que os habitavam, essa ação ficou conhecida como a ‘Liga Social contra o Mocambo’.

01901 - Mocambos situados nas zonas alagadas do Recife, Afogados e Santo Amaro. Foto. M.C.

Mocambos localizados em áreas alagadas do Recife deram origem às primeiras palafitas da cidade | Foto: Museu da Cidade do Recife

“Se o objetivo era extinguir os mocambos, através da Liga Social, por que eles foram apenas removidos do centro urbano e tolerados em áreas periféricas do Recife? Esse é o ponto. O governo não estava preocupado com as condições de vida da população pobre do Recife e sim em limpar o centro da cidade da ‘praga visual’ que eram os mocambos”, diz Thiago. A população expulsa do centro do Recife migrou para essas áreas remotas da cidade, onde começaram a se instalar sem o mínimo apoio do governo.Na medida em que as famílias eram proibidas de habitar o centro, elas começavam a migrar para áreas que não tinham intervenções do governo. Muitos trabalhadores levaram suas famílias para os morros e áreas de mangue do Recife. Na época, já era proibido se construir em áreas tidas como ‘ambientes naturais’ da cidade, para que elas fossem preservadas. Porém, mesmo com essa proibição, o governo fechou os olhos para a ocupação dos desabrigados. Inicialmente o governo tinha o interesse de afastar os ‘ex-mocambados’ para zonas rurais do estado, mas eles já vieram de lá e não queriam voltar. Então, a liberação dos morros assim como das áreas ribeirinhas do Recife foi considerada como uma solução paliativa para a ‘limpeza’ urbana do centro da cidade.

“Nos morros e beiras de rio as pessoas começaram a se instalar. Foram localidades que passaram por um intenso parcelamento do solo e aterramentos constantes, em relação às beiras do rio. Isso agravou muito o ambiente que essas pessoas escolheram morar. Ele não estava preparado ecologicamente para virar um espaço urbano. Além disso, o governo não incentivou os desabrigados na construção de suas novas moradias. Tudo foi na base do improviso, sob uma precariedade em relação aos serviços de saneamento básico nesse locais, como a falta de iluminação, calçamento, abastecimento de água, coleta de lixo, proteção contra os danos da chuva e falta de acesso aos locais”, esclarece Thiago.

Image

Sr. Ubiraci vive há 72 anos em palafita e convive diariamente com a grande quantidade de lixo e de ratos no local | Foto: Selassié de Andrade

Um claro exemplo de todo esse processo histórico de favelização da cidade do Recife é o bairro do Pina. Sua população começou a ser formada a partir da chegada dos desabrigados expulsos dos mocambos do centro Recife. Poucos foram os contemplados com habitações construídas pelo programa da Liga Social contra o Mocambo, que exigia comprovação do estado civil (visando combater a promiscuidade) e de exames médicos (visando combater as epidemias). Isso deixou um grande número de famílias sem moradia, obrigando-as a procurar áreas de mangue para se alocarem, buscando a própria sobrevivência na pesca ribeirinha de pequenos peixes e mariscos.

Encontramos Sr. Ubiraci retirando o lixo da beira do rio nas palafitas do Porto, bairro do Pina. Com 72 anos, ele sentiu os efeitos da expulsão dos mocambos do Centro do Recife: “Meus avós foram expulsos da Gameleira (atual Cais José Estelita). Foi muita gente que saiu de lá. Alguns ganharam terreno aqui no Cabanga (atual Pina) e fizeram casa. Outros tiveram que se virar como meus pais”. Seu Ubiraci vive em palafitas desde que nasceu. Já ouviu muitas promessas de que iria sair de lá, que receberia uma casa e não precisaria mais conviver com a ameaça dos ratos. “Eu tenho que limpar todo dia este lugar porque assim que escurece, se você olhar, é como uma boiada chegando no curral de tantos ratos”, lamenta.

Image

Mário Luciano da Silva (o popular Sr. marinho) líder comunitário do Pina | Foto: Katarina Vieira

O líder comunitário do Bode, no Pina, Mário Luciano da Silva, mais conhecido como Sr. Marinho, 67 anos, relata também como sua família chegou ao bairro. “Viemos do interior e meus pais fizeram um barraco aqui. Tudo isso era área de maré e foi sendo invadida, com o tempo o Pina foi crescendo e é isso que a gente vê hoje.

Histórias como a de Sr. Ubiraci e Sr. Marinho são fortes exemplos do processo de formação das favelas no Recife.  A falta de planejamento do governo, tanto estadual quanto municipal, no início do século XX causou esse desordenamento que vemos hoje na cidade. Não só em relação às favelas, tudo foi pensado com muita pressa, sem nenhuma reflexão das consequências que tais decisões acarretariam. Em muitos bairros, que são costumeiramente chamados de comunidade, não mudou muita coisa de lá pra cá, a presença governamental ainda é muito pouca. De saneamento à segurança, muita coisa ainda tem pra se fazer.  Programas de habitações populares estão sendo aos poucos colocados em prática, mas não estão mostrando um bom resultado quanto à sua proposta de atender todas as famílias que necessitam de uma moradia ‘digna’. Realmente, ainda tem muito a ser feito.